A temporada social na Londres de Jane Austen

A temporada social teve seu início não apenas em razão do mercado casamenteiro, mas pela necessidade de entreter as classes mais altas enquanto estavam na cidade. O esquema era mais ou menos o seguinte: os detentores de títulos de nobreza precisavam aparecer na Câmara dos Lordes durante o período de atividade do parlamento, ou seja, durante esse período – que era bastante variável, conforme dá para ver na tabela abaixo – todos eles precisavam estar em Londres, e muitos traziam as famílias junto.

Ok, precisar é uma palavra muito forte, já que se o nobre optasse por não comparecer, ele sempre poderia enviar um representante com uma procuração para atuar em seu nome.
De acordo com a pesquisadora do período regencial, Regina Scott, o parlamento estava em atividade nos seguintes períodos:
– 1º de novembro de 1810 até 24 de julho de 1811
– 7 de janeiro de 1812 até 30 de julho de 1812
Eleição geral: 5 de outubro até 10 de novembro de 1812
– 24 de novembro de 1812 até 22 de julho de 1813
– 4 de novembro de 1813 até 30 de julho de 1814
– 8 de novembro de 1814 até 12 de julho de 1815
– 1º de fevereiro de 1816 até 2 de julho de 1816
– 28 de janeiro de 1817 até 12 de julho de 1817
– 27 de janeiro de 1818 até 10 de junho de 1818
Eleição geral: 15 de junho até 25 de julho de 1818
– 14 de janeiro de 1819 até 13 de julho de 1819, antes do massacre de Peterloo em 16 de agosto de 1819.
– 23 de novembro de 1819 até 28 de fevereiro de 1820 (houve sessão especial em razão do massacre, mas encerraram as atividades mais cedo por causa da morte do rei George III).
Eleição Geral: 6 de março até 14 de abril de 1820
– 21 de abril até 23 de novembro de 1820 (incluindo uma sessão especial no início de agosto para o julgamento da rainha Caroline).

Ou seja, Londres ficava cheia de lordes e ladies em busca do que fazer com seu tempo e dinheiro rs! Além disso, a família real costumava estar presente em Londres de outubro até dezembro e de abril até junho… ou seja, havia uma porção de eventos na cidade, como bailes, soirées, jantares, espetáculos de teatro e ópera e tantos outros divertimentos que a capital oferecia (você pode ver nesse post aqui sobre algumas opções de lazer em Londres naquele tempo).

E que, obviamente, não eram divertimentos para meros mortais rs!

Durante essa época do ano, a cidade recebia cerca de três mil famílias que possuíam grandes propriedades capazes de gerar alguma renda (havia quem se referisse à essas pessoas como os “dez mil superiores”). Nem todos possuíam títulos de nobreza, mas eram todos muito bem relacionados e, principalmente, ricos o bastante para bancar as enormes despesas decorrentes da socialização com o crème de la crème da sociedade britânica da época. Entre essas despesas estavam incluídas as seguintes:

  • possuir ou alugar uma boa casa em uma área elegante de Londres (isso além de uma grande propriedade rural), junto com os criados, estábulos, etc.
  • guarda-roupas completos, seguindo a última moda, para todos os membros da família que iriam participar dos eventos.
  • comida, bebidas, decorações, músicos e etc. – ou seja, todo o necessário para poder ser anfitrião de algum entretenimento em grande estilo.
  • aluguel de camarotes no teatro e ingressos para atrações públicas como os jardins de Vauxhall, o anfiteatro Astley, etc.
  • mesada para as esposas, filhos e filhas.

Que motivo leva pais respeitáveis a enrolar seus tapetes, virar a casa de pernas para o ar e gastar um quinto de sua renda anual em jantares dançantes e champagne? (William M. Thackeray, A Feira das Vaidades –edição de 1963 da editora Civilização Brasileira, tradução de Ruth Leão).

Considerando todos os gastos com a apresentação delas na sociedade, muitas meninas nem sequer consideravam não corresponder as expectativas de seus pais quanto a um casamento vantajoso!
Lembrando que a época mais agitada da estação começava na primavera, em março!

Apresentação na corte

Os gastos já se iniciavam de forma estrondosa, uma vez que as moças que iriam participar da temporada social pela primeira vez precisavam ser apresentadas à rainha (na época de Jane Austen era a rainha Charlotte). Além disso, os pais precisavam organizar um baile em suas residências para ‘apresentar’ suas filhas à sociedade (ou melhor, ao mercado casamenteiro rs).

As ‘debutantes’ podiam receber, ainda, um voucher para poder participar dos bailes no Almack’s – mas isso era apenas para as mais afortunadas!

Para a apresentação na corte, onde a jovem iria se curvar perante a rainha, era exigido um vestido com uma armação enorme por baixo:

Não ficava muito bonito, né? Especialmente na época da regência, quando a cintura dos vestidos era bem alta – diferente dos vestidos das décadas anteriores, que tinham a cintura bem marcada com corsets bem apertados.

Agora, na verdade, verdaaade, o que vinha embaixo dessa saia não se chama armação, e sim panier – mas você pode descobrir muito mais sobre isso com alguém que entende muuuuuito mais do que eu: a Pauline Kisner, autora do blog A modista do desterro. Nesse post aqui, ela explica bem certinho o que existe por baixo de um vestido desses!

Mas não pensem que a humilhação exigência parava por aí! Além do vestido que praticamente impossibilitava as mulheres de ter qualquer movimento gracioso (rs), elas precisavam usar um adorno na cabeça com nada mais nada menos do que sete penas de avestruz – e ainda colocar todas as joias que conseguissem, independente de quão ridículo ficasse o resultado final.

No dia da apresentação, as moças participavam de uma procissão de carruagens que descia a rua Piccadilly em direção ao palácio de St. James. Lá, cada uma das moças era levada até a rainha, fazia uma cortesia, trocava cumprimentos e talvez algumas amabilidades com Sua Majestade, e então andava de costas para o fundo da sala (ninguém devia virar as costas para a realeza), torcendo para não tropeçar ou fazer algo que ocasionasse a desaprovação da rainha.

“Apesar do que lemos nos romances de época, a apresentação na corte não era exigida para se conseguir uma entrada no Almack’s. Algumas das patronesses do Almack’s achavam que eram mais exclusivas do que a corte, e davam e negavam permissões de acordo com seus caprichos. Uma garota podia participar de várias temporadas antes de ser apresentada à rainha; algumas só eram apresentadas após o casamento” (Donna Hatch, Historical Hussies)
Durante a época da regência, algumas moças recebiam um convite para serem apresentadas à rainha – uma honra que, normalmente, era destinada apenas às filhas e esposas de lordes. Essa apresentação não ocorria na sala do trono, mas sim na sala de estar da monarca, de modo que o evento ficou conhecido como “the Queen’s Drawing Room”.
Ah! Um detalhe interessante: a rainha beijava as filhas de lordes na testa; quando se tratava de todas as outras pessoas, a rainha oferecia sua mão para ser beijada.

Quando uma jovem chegava na idade certa, normalmente dezessete ou dezoito anos, sua mãe enviava um comunicado para o lorde Chamberlain informando que gostaria de apresentar sua filha. O lorde, então, enviava a data da apresentação, a lista de exigências quanto a vestimenta e o número de penas que deveriam ser utilizadas.

Ou seja, podia ser um dia emocionante ou um dia de terror. Ou quem sabe o momento ideal para afrontar a sociedade? rs! Eu lembro que em Ligeiramente Casados, da Mary Balogh, a Eve tem uma apresentação memorável.

Aliás, se você não leu a série Os Bedwyns, tá na hora de ler. Pensa em uma série de época boa!
São seis livros:
1) Ligeiramente Casados
2) Ligeiramente Maliciosos
3) Ligeiramente Escandalosos
4) Ligeiramente Seduzidos
5) Ligeiramente Pecaminosos
6) Ligeiramente Perigosos
P.s: prepare-se para cair de amores por Wulfric Bedwyn!

E o que mais havia para ser feito?

Londres, assim como hoje, oferecia uma grande variedade de opções de entretenimento. No início do século XIX, podia-se caminhar no parque (o Hyde Park e o Green Park eram bastante populares), visitar o museu britânico ou todos os outros museus e galerias espalhados pela cidade, conferir uma performance circense no anfiteatro Astley, visitar os jardins de Vauxhall e assistir aos fogos de artifício, além de comparecer nos teatros e assistir óperas. Além disso, sempre havia bailes e festas, soirées, noites musicais, cafés da manhã ao estilo veneziano, chá da tarde ao ar livre, jantares. E especificamente para os cavalheiros, havia corridas, partidas de boxe, clubes de jogos e muitas outras formas de diversão que não existiam em casas de campo mais remotas.

Agora, se alguém estivesse atrás de compras, a Bond Street era a rua mais luxuosa – mas compras na Oxford Street também eram bem populares. Aliás, no blog tem esse post aqui sobre compras e lojas na Londres da época de Jane Austen 🙂 Vale conferir!

A temporada social em Londres também era crucial para a classe trabalhadora. Chegando na cidade, os ricos precisavam de criados para suas casas londrinas, uma vez que eles traziam poucos funcionários com eles. Quem não tinha casa na cidade, alugava. E eles compravam. Muito! As ladies precisavam de vestidos e sapatos finos, além de chapéus, luvas, e todos os outros apetrechos rs. Eles também frequentavam bastante o teatro e a ópera, o que significava mais emprego para artistas e as equipes desses estabelecimentos.

Espero que tenham gostado do post. Qualquer dúvida, é só comentar abaixo!

Com carinho,

Roberta.

Fontes: Susana Ellis, Susana Ellis, Jane Austen’s World, Historical Hussies, Donna Hatch, Donna Hatch, Regency History.
A imagem destacada é de Vittorio Reggianini.
Postado por: Roberta Ouriques

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