As cartas de Jane Austen traduzidas – V

“Steventon*, sábado, 27 de outubro.

*Steventon é um vilarejo localizado no condado de Hampshire, Inglaterra, onde Jane Austen viveu desde 1775 até 1801.

Minha querida Cassandra, sua carta foi uma surpresa muito agradável para mim hoje, e eu peguei uma folha grande de papel para demonstrar minha gratidão.

Nós chegamos aqui ontem, entre as quatro e as cinco horas, mas eu não posso te enviar um relato triunfante sobre os últimos dias de nossa viagem como eu fiz com o primeiro e o segundo dia. Logo depois de eu ter terminado minha carta em Staines, minha mãe começou a sofrer em razão do exercício e da fatiga decorrente da viagem, e ela estava bastante indisposta. Ela não passou uma noite boa em Staines, mas suportou a jornada melhor do que eu esperava, e em Basingstoke, onde nós paramos por mais de meia-hora, ela recebeu bastante conforto com um caldo e a supervisão do Sr. Lyford, que recomendou que ela tomasse doze gotas de láudano quando ela fosse dormir, coisa que ela fez como instruída.

James nos visitou no momento em que estávamos indo tomar chá, e minha mãe estava bem o suficiente para conversar de forma alegre com ele antes de ir para a cama. James parece ter voltado ao mal costume de vir para Steventon apesar da reprovação de Mary, pois ele esteve aqui antes do café da manhã e agora está nos visitando pela segunda vez. Era para eles jantarem aqui hoje, mas o tempo está muito ruim. Eu tive o prazer de ser informada que Martha está com eles. James a buscou em Ibthorp na terça-feira, e ela ficará com eles até partir para Kintbury.

Nós não tivemos nenhuma aventura em nossa viagem ontem, exceto que o nosso baú quase escorregou, e nós fomos obrigados a parar em Hartley para que as rodas fossem lubrificadas.

Enquanto minha mãe e o Sr. Lyford estavam juntos, eu fui até a casa da Sra. Ryder e comprei o que eu queria comprar, mas não perfeitamente. Não havia aparelhos estreitos para as crianças, e quase nenhuma seda; mas a Srta. Wood, como sempre, está indo para a cidade logo, e irá trazer um novo estoque. Eu paguei dois xelins e três pences pela jarda de flanela, e eu acho que não é muito boa, mas é uma flanela tão desprezível por si só que refletir se é boa ou ruim não tem importância. Eu comprei um pouco de tinta japonesa também, e na próxima semana devo começar a arrumar meu chapéu, atividade da qual, você sabe, depende minhas principais esperanças de felicidade.

Eu estou muito imponente, eu digo; tive a dignidade de ministrar o láudano de minha mãe ontem a noite. Eu cuido das chaves dos vinhos e do armário, e, desde que comecei esta carta, já precisei ir até a cozinha duas vezes. Nosso jantar estava muito bom ontem, e a galinha estava perfeitamente ensopada; assim eu não vou precisar demitir Nanny por causa disso.

Quase toda a bagagem foi desfeita e guardada ontem de noite. Nanny escolheu fazer isso, e eu não fiquei triste de estar ocupada. Eu peguei as luvas da bagagem, e guardei as suas na sua gaveta. Elas são claras e bonitas, e eu acredito que são exatamente o que nós combinamos.

Sua carta foi escoltada até aqui por uma carta da Sra. Cooke, onde ela disse que ‘Battleridge’ não irá aparecer antes de janeiro, e ela está tão insatisfeita com a negligência de Cawthorn que não pretende emprega-lo nunca mais.

A Sra. Hall, de Sherborne, deu a luz a um bebê morto, algumas semanas antes do tempo, devido a um susto. Eu suponho que ela tenha olhado para o marido por engano.

Choveu muito aqui nos últimos quinze dias, muito mais do que em Kent, e, desde Staines, nós encontramos as estradas desgraçadamente sujas. A rua de Steventon também tem sua cota de sujeira, e eu não sei quando vou conseguir ir até Deane.

Fiquei sabendo que Martha está com uma melhor aparência e uma melhor disposição, e eu fico feliz em saber que agora ela vai poder tirar sarro abertamente do Sr. W.

Os óculos que Molly achou são da minha mãe, e a tesoura é do meu pai. Nós estamos muito felizes em ouvir um relato tão bom de seus pacientes, pequenos e ótimos. A lembrança que Dordy tem de mim é um prazer – um prazer bobo, pois eu sei que irá acabar logo. Meu apego a ele irá durar mais. Eu irei pensar com ternura e deleite sobre o semblante bonito e risonho dele até que alguns poucos anos o transformem em um camarada ingovernável e sem graça.

Os livros de Winton estão empacotados e guardados; a encadernação é bem compacta, e agora temos bastante espaço na estante para tudo que a gente quer colocar lá. Eu acredito que os criados ficaram felizes em nos ver. Nanny ficou, eu tenho certeza. Ela confessou que foi bastante tedioso, mas ainda assim ela ficou com seu filho até domingo passado. Eu fiquei sabendo que há algumas uvas sobrando, mas acredito que não sejam muitas; elas devem ser colhidas o mais rápido possível, ou essa chuva irá apodrecê-las.

Estou muito brava comigo por não ter escrito as letras mais próximas; por que meu alfabeto é tão mais espaçado que o seu? A filha da Sra. Tilbury irá ter o filho. Devo dar à ela alguma de suas roupas de bebê? O vendedor de laços esteve aqui alguns dias atrás. Que falta de sorte para nós que ele tenha vindo tão cedo! A Sra. Bushell irá fazer nossa lavanderia apenas por mais uma semana, já que Sukey arrumou um lugar. A esposa de John Steevens irá cuidar de nossa purificação. Não parece que nada que ela toca ficará limpo algum dia, mas quem sabe? Não parece que vamos encontrar outra empregada no momento presente, mas a Sra. Staples irá fazer as vezes de uma. Mary contratou uma jovem menina de Ashe que nunca deixou que o trabalho a fatigasse, mas James acha que ela não é forte o suficiente para trabalhar aqui.

Earle Harwood foi para Deade, e eu acho que Mary nos escreveu, e a família dele o avisou que eles iriam receber sua esposa, se ela continuasse a se comportar bem por mais um ano. Ele ficou muito grato, como deveria; o comportamento deles com o assunto foi particularmente generoso. Earle e a esposa vivem da forma mais privada que se pode imaginar em Portsmouth, sem manter nenhum criado. Ela deve ter um amor inato pela virtude, para se casar sob essas circunstâncias.

É sábado de noite, mas eu escrevi a maior parte da carta pela manhã. Minha mãe não se abateu durante o dia todo; o láudano fez com que ela dormisse bastante, e, como um todo, eu acho que ela está melhor. Meu pai e eu jantamos sozinhos. Que estranho! Agora, ele e John Bond estão muito felizes um na companhia do outro, pois acabei de ouvir os passos pesados desse último no corredor.

James Didweed nos visitou hoje, e eu entreguei a ele o que o irmão dele pediu. Charles Harwood, também, acabou de nos visitar para ver como estávamos, ele estava vindo de Dummer, onde ele esteve com a Srta. Garrett, que irá retornar para sua antiga residência em Kent. Vou parar de escrever agora, ou não terei espaço para nenhuma palavra amanhã.

Domingo – Minha mãe teve uma boa noite, e está se sentindo muito melhor hoje.

Eu recebi uma carta de minha tia, e obrigada por seu rascunho. Eu irei escrever para Charles logo. Por favor, mande um beijo para Fanny e Edward por mim, e pergunte para George se ele tem uma nova música para mim. Foi muito gentil por parte de minha tia em nos convidar para ir a Bath de novo; uma gentileza que merece uma melhor resposta do que lucrar com isso.

Sua, para sempre, J. A”.

Espero que tenham gostado!

Com carinho, Roberta.

A imagem em destaque foi retirada daqui.
Postado por: Roberta Ouriques

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