Londres no tempo de Jane Austen – Parte 3: as lojas e as compras

Hoje é dia de mais um post sobre a Londres do tempo de Jane Austen (os outros dois estão aqui e aqui). E hoje vamos falar sobre as lojas da cidade e os costumes na hora de fazer as compras naquele tempo. Que tal? Quem me conhece sabe que eu adoro fazer e falar sobre compras (hahaha, meu pai que o diga!), ou seja, é um post que estou adorando fazer! E para começar, que jeito seria melhor do que falar sobre as livrarias?

Dizia-se que os melhores lugares para se adquirir livros eram na Ludgate Hill, na Paternoster Row e no pátio da igreja de St. Paul (havia uma ruazinha adjacente ao pátio que possuía várias lojinhas), mas outros endereços também abrigavam livrarias famosas: como, por exemplo, a Lackington Allen and Co, situada na Finsbury Square.

A livraria de James Lackington era um dos atrativos de Londres até pegar fogo, em 1841. Lackingdon aceitava apenas dinheiro e dizia que vendia livros pelo preço mais barato da Inglaterra (vale mencionar que Lackington também negociava/vendia livros valiosos e raros, normalmente de segunda mão).

“A loja de Lackington, em Finsbury Square, pode ser considerada uma das curiosidades da cidade e merece ser visitada por todos os estrangeiros” (Thomas Feltham, 1803, A picture of London).
Estima-se que James Lackington tenha vendido cerca de cem mil livros em 1791!
Interior da Lackington Allen and Co, que, ao contrário de suas concorrentes, era enorme. Realmente parece que era linda né? Pena que foi destruída em um incêndio.
(Imagem: Pinterest)

Para os lados de Mayfair (que é o bairro onde a maioria dos mocinhos e mocinhas dos nossos queridos romances de época moram rs), mais especificamente no número 187 da Picadilly Street, havia a Hatchard’s, inaugurada em 1797 por John Hatchard. Era um ponto de encontro para aqueles que faziam parte do partido conservador, Tory: “a livraria tinha uma atmosfera de clube, com os jornais do dia espalhados em uma mesa perto da lareira; havia bancos do lado de fora para que os criados dos clientes pudessem esperar” (Teresa L. Hamlin e Sharon Laudermilk, The Regency Companion, 1989).

A Hatchard’s era ponto de encontro dos tories, enquanto a livraria Debrett’s servia de ponto de encontro para os membros do partido Whig.
E sabe que a Hatchard’s continua em atividade, ocupando o mesmo edifício por mais de duzentos anos? É um ótimo local para visitar em Londres!

No número 114 da Strand Street ficava a livraria de Thomas Cadell. Entre as publicações* dele estão “A história do declínio e queda do império romano”, de Edward Gibbon, a série de poemas “The seasons” de James Thomson, e “Tom Jones” de Henry Fielding.

  • Publicações por que algumas livrarias não funcionavam apenas como um local de venda dos livros, mas também como uma editora/gráfica.

Também na Strand Street estava a Livraria das Belas Artes, que era, ao mesmo tempo, uma livraria, uma gráfica, uma biblioteca e um centro social. Nas noites de quarta-feira, havia um evento chamado de “Conversazioni” e o lugar servia de salão para a classe média e a classe de comerciantes, onde eles podiam conversar sobre artes, conhecer artistas, e comprar seus produtos.

Mas as livrarias mais “badaladas” ficavam no lado oeste da cidade. Eram a Debrett’s, a Stockdale’s, a Ginger’s, a Ridgeway’s, a Hookham’s, a Earl’s e Lloyd’s, que vendiam os jornais do dia, de forma que eram bastante frequentadas por pessoas elegantes, bem como eram utilizadas para encontros e discussões sobre política e literatura.

E estrangeiros também tinham sua vez, viu? Algumas das livrarias francesas, em Londres, eram a DeBoffe, em Gerrard Street; Dulau, em Soho Square; L’Homme, em New Bond Street; Boosey, em Old Broad Street e Gameau and Comp, em Albemarle Street. As alemãs: Griffiths, em Paternoster row; Giesweiller, em Parliament Street e Escher, em Gerrard Street.

A Harris’s, na esquina do pátio da igreja de St. Paul, e a Tabart’s, no número 157 da New Bond Street, vendiam apenas livros sobre educação. Segundo Thomas Feltham, em 1803: “Nessas lojas, diretores de escolas, bem como os pais, irão encontrar os melhores livros em cada área do conhecimento”.

Já na St. James Street, no número 27, em frente ao clube de cavalheiros Boodle’s, ficava a gráfica de Miss Humphrey, que imprimia caricaturas. Ela fez sucesso por manter o monopólio das caricaturas de James Gillray, um famoso caricaturista da época.

Uma das caricaturas de James Gillray.
(Imagem: Pinterest)

Mas nem só de livros vive uma sociedade, não é mesmo?

Para as damas, alguns armazéns em Londres, como em grandes lojas de departamentos, vendiam tecidos e outros itens para enxovais. Clark & Debenham* se estabeleceram como alfaiates em Mayfair, perto da Pearl and Co, fábrica de botas. No número 104 da Fleet Street estava a Waithman & Sons, que vendia linho e xales; G. Sutton vendia produtos de seda na Leicester Square; o armazém Reeves Hosiery, na Strand Street, vendia meias de seda e bolsas.

  • A Clark & Debenham era uma das lojas que vendiam algumas unidades de vestidos prontos para uso.

O Harding, Howell & Co’s Grand Fashionable Magazine, era um armazém situado no número 89, Pall Mall, e possuía quatro áreas de vendas, divididas por paredes de vidro. Cada repartição lembrava uma grande loja, com grandes cúpulas de vidro no teto para que entrasse bastante luz solar, estantes altas com incontáveis gavetas, balcões de madeira polida e assistentes masculinos e femininos para ajudar nas vendas. Os quatro departamentos trabalhavam com:

  • leques e penas;
  • sedas e musselinas (lisas ou estampadas), rendas, botões, fitas e luvas;
  • joias, artigos de decoração, relógios franceses e perfumes;
  • chapéus e vestidos.

Harding, Howell & Co: a loja contava com quarenta funcionários (todos do sexo masculino) para dar conta de atender toda a clientela! (Imagem: Pinterest)

Mas esse era o início do processo da “compra” de uma roupa, já que o normal era mandar fazer um vestido sob medida. Ou seja, depois de escolhidos os tecidos, era hora de procurar uma costureira/modista.

Outras lojas dignas de menção são a joalheria Gray’s, uma das favoritas naquele tempo, situada no número 41 da Sackville Street, e a Floris, que vendia perfumes e produtos de higiene (escovas de dente, por exemplo).

A Floris também continua em funcionamento, no mesmo local.

Já os cavalheiros precisavam de chapéus e botas, né? Para o primeiro item, podiam procurar por Joseph Lock, chapeleiro proprietário da loja no número 6 em St. James Street, que dava um xelim de desconto caso o cliente pagasse em dinheiro. Todos os chapéus na Lock’s eram feitos sob medida, e um dos clientes do estabelecimento foi Beau Brummel.

Já se estivessem atrás de uma bota, Hoby era o melhor fabricante de Londres. Sua loja ficava na esquina da Picadilly Street com a St. James Street.

E para os cavalheiros que se juntassem ao exército (as guerras napoleônicas estavam em seu auge), havia a Hawkes, em Picadilly, onde podiam adquirir os uniformes. Era lá, inclusive, que o duque de Wellington e o próprio rei George III compravam os seus.

Por fim, vale dizer que os estabelecimentos comerciais abriam por volta das nove horas da manhã, e fechavam quando o movimento começava a baixar, geralmente pouco depois do por do sol – isso, no verão, significava doze horas de trabalho, já que, nessa época, o sol se põe perto das 21h na capital inglesa. Seria meu sonho escurecer essa hora, sim ou claro? rs!

Mas e Jane Austen fazia compras nessas lojas? Provavelmente não com muita frequência, já que as lojas na região de Mayfair eram mais caras. O local preferido de Jane na hora das comprinhas era a Leicester Square (embora eu deva dizer que até 1808 os quatro lados da praça eram cercados por imóveis residenciais – incluindo quatro condes), local que ela frequentava bastante (especialmente quando estava visitando seu irmão, Henry, que morava no bairro Covent Garden). De fato, Jane Austen “apadrinhava” Isaac Newton, um alfaiate da região.

A loja de Isaac Newton. Ao lado, na porta onde está escrito “Rome Malta”, era a entrada do Barker’s Panorama, que eu falei nesse post aqui.

Pode ser também que Austen tenha dado uma passadinha em alguma das feiras que aconteciam em Londres – algo como as galerias de hoje em dia. Uma delas era a Western Exchange, no número 10 da Old Bond Street. Era uma enorme sala, onde comerciantes alugavam cabines para vender seus produtos (fossem o que fossem).

Western Exchange em 1817 (imagem retirada daqui).

Em 1814, o Pantheon abriu com o Pantheon Bazaar – o paraíso dos consumidores, que podiam encontrar todo tipo de bens luxuosos por lá (joias, roupas, peles…) e também das crianças, graças às barracas que vendiam brinquedos, livros infantis e as lojas de animais exóticos (como macacos ou papagaios).

Nesse post aqui eu falei um pouco sobre o Almack’s, um clube muito hexclusivo na Londres de Jane Austen. E se você é autor(a), talvez queira dar uma olhadinha nesse post aqui, com uma lista de nomes do período da regência.

Espero que tenham gostado do post. Até o próximo!

Com carinho, Roberta.

Fontes: Regency Encyclopedia, Hibiscus-sinensis, Floris, Hatchard’s, Jane Austen’s London.
Postado por: Roberta Ouriques

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