O quão rico era Mr. Darcy?

Olá! Eu traduzi esse artigo em 2015, para um outro blog (só por curiosidade: sabe como eu comecei com essa vida de traduzir matérias/vídeos na internet? Em um blog sobre The Vampire Diaries). Eu resolvi postar aqui no blog porque é um artigo bem legal, apesar de eu ter algumas ressalvas para a leitura:

  1. O artigo foi escrito em 1989, ou seja, a conversão não é atual. Mais do que isso: toda a conversão feita pelo autor, James Heldman, foi feita para o dólar vigente em 1988. Eu até cogitei torrar a paciência do meu namorado (que, além de farmacêutico, está se formando em economia) para ele dar um jeito nisso aí, mas acho que ele não quer fazer o TCC dele com base na fortuna de Mr. Darcy rs.
  2. Na época em que traduzi, optei por manter Mr. Darcy ao invés de Sr. Darcy.
  3. O texto foi traduzido ao pé da letra, portanto, quando lerem a expressão “hoje em dia”, lembrem que estamos falando do final da década de 80.

Boa leitura!

*Artigo de JAMES HELDMAN, do departamento de Inglês da Western Kentucky University.

Nota do autor: Esse trabalho foi originalmente apresentado em 1989 em Santa Fé e foi imprimido com algumas modificações. A libra e o dólar sofrem pequenas modificações todos os anos, mas normalmente são modificações leves. Podem haver discordâncias sobre como a libra e o dólar devem ser calculados, mas eu estou ciente de que o método aqui utilizado pode ser considerado conservador.

O dinheiro é importante para todo mundo – tanto para leitores ávidos de Jane Austen bem como para pessoas normais. Certamente era importante para a própria Jane Austen. Seus romances e suas cartas eram liberadamente salpicadas com referências à dinheiro. Personagens são definidos por suas rendas e fortunas tanto quanto pelas suas aparências e maneiras. Pretendentes são elegíveis ou não, em parte, por causa de suas rendas. Jane Austen não era tão cínica a ponto de acreditar que o dinheiro poderia assegurar a felicidade, mas ela era realista o bastante para entender que uma renda suficiente era vital para qualquer casamento e que um bom ou até mesmo um casamento ideal seria reforçado imensuravelmente por uma fortuna substancial. Embora ela tenha tentado, sem sucesso, permanecer no anonimato como escritora, ela foi muito atenta à recepção de seus trabalhos, e manteve uma conta precisa de quanto ganhava através de seus escritos.

O problema é saber o que essas referências frequentes à moeda do século XIX nos romances de Jane Austen e em suas cartas significam em se tratando do dólar de hoje em dia. Qual é o valor significativo, tangível, para leitores americanos no final do século XX? Essa foi uma questão que me deixou curioso por muito tempo e uma questão para a qual eu acredito ter encontrado uma resposta satisfatória. Eu consultei uma autoridade, um colega no departamento de economia da minha universidade, e na melhor tradição de colegialidade, ele me presenteou com uma tabela conversora da moeda britânica de cada década desde 1800 para o dólar atual (de 1988) (*Tabela 1). O processo de conversão, o qual eu tenho certeza de ser completamente aceito entre os economistas, começa com a taxa de câmbio de cada década. Quando a taxa de câmbio é ajustada para a inflação usando o Índice de Preços do Consumidor dos EUA com 1988 como 100, aí é possível de calcular o equivalente em dólar de 1988 para a libra britânica de cada década. Além disso, usando uma variedade de estatísticas históricas, é possível se determinar a renda per capita em dólar para cada década e também converter esse valor em dólar de 1988.

Assumidamente, embora eu esteja certo de que as figuras são sólidas, eles não podem e não conseguem colocar em conta algumas variáveis – em particular, a mudança gradual de uma economia predominantemente rural, não baseada em moeda, que era a economia do início do século XIX, para a economia cada vez mais urbana e baseada na moeda que é a economia que nós vivenciamos. No entanto, essas figuras podem, eu acredito, nos dar um senso muito mais claro, embora seja aproximado, do que o dinheiro daquele tempo significa agora. O ano no qual eu irei focar é, obviamente, 1810 e o dólar de 1988 equivalente para esse ano é de $33,13. Outro detalhe importante para se manter em mente é que a renda per capita em dólar em 1810 era de $821 em dólar de 1988. Contudo, uma vez que a renda per capita na Inglaterra no início do século XIX era cerca de 20% maior do que a dos Estados Unidos, nós podemos estimar isso em cerca de $1,000. Esses dois detalhes – o dólar de 1988 equivalente à renda per capita da Inglaterra de 1810 – podem, eu acredito, nos dar um pouco de clareza sobre o que o dinheiro significa no mundo de Orgulho e Preconceito.

Mr. Darcy não é o personagem mais rico de Jane Austen. Essa honra pertence, tão longe quanto podemos determinar, ao Sr. Rushworth em Mansfield Park; e pode pertencer à Sir Thomas Bertram, embora nós nunca tenhamos ficado sabendo de sua renda. Não obstante isso, Mr. Darcy é muito rico. Ele tem uma renda de 10,000 libras ao ano; se nós multiplicarmos isso por $33,13, então nós veremos que Mr. Darcy tem uma renda de mais de $300,000 ao ano. Nesse panorama, isso dificilmente faz dele um Lee Iacocca. Mas a renda de Mr. Darcy é pelo menos 300 vezes maior que a renda per capita no seu tempo. Mais que isso, Mr. Darcy pertence a um grupo muito seleto. G. E. Mingay, um economista histórico, estima que em 1790, cerca de 20 anos antes da época de Orgulho e Preconceito, existiam apenas 400 famílias entre a aristocracia rural na Inglaterra que tinham a renda dentro desse intervalo, entre 5,000 e 50,000 libras ao ano, com a média sendo de 10,000 libras ao ano. Mr. Darcy faz parte, portanto, dessa média que Mingay descreve como os “grandes senhores de terra”. A magnitude da sua renda pode ainda ser melhor compreendida quando analisada em relação à outras rendas da mesma época. Em 1795, a renda de um comerciante ou de um banqueiro era de apenas 2,000 libras ao ano. Portanto, é fácil de entender porque a Sra. Bennet fica afobada quando descobre sobre o casamento da filha. Elizabeth ficaria, sem sombra de dúvidas, muito confortável. O Sr. Bingley tinha herdado 100,000 libras – algo como $3,000,000 – do seu pai, e sua renda era a metade da renda do Mr. Darcy – 5,000 libras ao ano ou cerca de $165,000 por ano. O Sr. Bennet, contudo, não é tão rico, com uma renda de apenas 2,000 libras ao ano ou pouco mais de $65,000 por ano; e embora ele seja dono de seu patrimônio, ao menos em vida, e sem dúvida consiga a maior parte da comida da família da própria fazenda, ele precisa satisfazer as necessidades de cinco filhas e de uma esposa fútil. Uma medida de quanto custam essas necessidades é a resposta do Sr. Bennet ao requerimento de ele dar 100 libras ao ano para Lydia como parte dos arranjos  para o casamento com Wickham. Ele disse: “Não chegaria a perder dez libras por ano com as cem que lhes deveria entregar; pois somadas a mesada e as despesas que dava em casa, mais os contínuos presentes em dinheiro que a ela chegavam pelas mãos da mãe, os gastos com Lydia chegavam mais ou menos àquela quantia” (Edição L&PM Pocket, “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen: tradução de Celina Portocarrero, Página 314).

Então, para o Sr. Bennet, o custo de manter uma filha adolescente é de cerca de $3,300 por ano. Se nós assumirmos que as necessidades de suas outras filhas custam aproximadamente o mesmo valor – e elas podem não ter tão caras como Lydia – então suas filhas custam para ele 500 libras ou $16,500 por ano, e ele ainda tem 1,500 libras ou quase $49,700 para dedicar à sua esposa, sua livraria e outros aspectos de sua moradia.

O futuro da Sra. Bennet e das meninas, com o evento da morte do Sr. Bennet, é, como a Sra. Bennet entende perfeitamente no início do romance, depressivo. A Sra. Bennet herdou 4,000 libras de seu pai, um advogado em Meryton, e 5,000 libras foram divididas entre ela e os outros filhos. Assumindo que a Sra. Bennet não tenha gastado nada da sua herança – talvez uma afirmação questionável – e assumindo que os piores medos do Sr. Bennet se realizassem e nenhuma das suas filhas se casasse, as seis mulheres teriam uma modesta fortuna de 9,000 libras. Investida em cinco por cento em títulos do governo, isso traria à elas uma renda de 450 libras ao ano – quase $15,000 – menos de um quarto da quantia com a qual elas eram acostumadas a viver em Longbourn. Claro, as coisas não acabam dessa maneira. O Sr. Bennet precisa dar a parte de Lydia – uma porção não especificada – dessas 5,000 libras quando ela se casa com Wickham. Tanto Jane quanto Elizabeth se casam extremamente bem e não precisam de suas partes. E quanto às outras duas filhas, eu acredito que devemos assumir que a Sra. Bennet cuidaria de qualquer eventualidade – e até que ela continuaria mandando à Lydia algumas libras de tempos em tempos.

Wickham também é um caso interessante para se examinar financeiramente. Ele ganhou 1,000 libras – pouco mais de $33,000 – do pai de Darcy. Subsequentemente, ele recebeu um adicional de 3,000 libras – quase $100,000 – de Mr. Darcy em razão de ter desistido de assumir qualquer paróquia dos arredores de Darcy, e portanto Mr. Darcy se sentiu absolvido de quaisquer outras obrigações para com ele. Mas como nós ficamos sabendo, Wickham é um gastador, um vida boa e um jogador – Mr. Darcy precisou liquidar mais de 1,000 libras em dívidas de Wickham – mais de $33,000 – antes de ele aceitar se casar com Lydia. Embora não nos seja possível aprovar, nós podemos ao menos entender como alguém com hábitos como esses ficaria tentado à se casar com Georgiana Darcy, que possuía uma fortuna de 30,000 libras – quase $1,000,000 (a mesma que a de Emma Woodhouse). Ninguém mais se beneficiaria do casamento de Wickham com Georgiana, mas Wickham, com seus gostos e hábitos, certamente sim.

O dinheiro em Orgulho e Preconceito é primordialmente uma medida de riqueza e segurança. Mas, em Razão e Sensibilidade, o romance financeiramente mais complexo de Jane Austen, o dinheiro parece funcionar de outras maneiras. Atitudes ao redor do dinheiro em Razão e Sensibilidade servem pelo menos para dois propósitos adicionais. Eles nos dão vislumbres dos gostos e valores de alguns dos personagens, e nos ajudam a entender algo sobre uma renda adequada no tempo de Jane Austen. Alistair Duckworth estima que a renda de John Dashwood era de 5,000 a 6,000 libras ao ano – cerca de $165,000 a $198,000 – e portanto ele é ainda mais rico do que Mr. Bingley. Não obstante isso, ele decide não permitir às suas irmãs e sua mãe 100 ou 50 libras ao ano, mesmo que o combinado tivesse sido de apenas 500 libras ao ano. Obviamente, John Dashwood é um avarento, egoísta, auto indulgente e mesquinho no maior grau. O estado de Willoughby em Combe Magna, de acordo com Sir John Middleton, dá à ele cerca de 600 libras por ano – cerca de $20,000 por ano – mas em razão de seus débitos e da incerteza da sua herança por parte da sra. Smith, ele escolhe noivar com a srta. Grey, que tem uma fortuna de 50,000 libras, e, incidentalmente, é a mais rica das herdeiras de Jane Austen que têm suas fortunas especificadas. A fortuna da srta. Grey, investida em cinco por cento, daria à ela 2,500 libras ao ano, o que, completadas com as 600 libras de Willoughby, deixa o casal com uma renda total de 3,100 libras ao ano – quase $103,000 por ano. Parece que até mesmo os gostos mais caros de Willoughby seriam satisfeitos com essa quantia e que seus motivos eram inteiramente mercenários. Ele pode ser visto, até, como um pupilo de Wickham, nesse contexto.

Por outro lado, Edward Ferrars tem a oportunidade de se tornar razoavelmente rico também. Se ele cedesse aos desejos da mãe e noivasse com a srta. Morton e suas 30,000 libras, ele receberia 1,000 libras por ano de sua mãe, 1,500 libras por ano da fortuna da srta. Morton investida em cinco por cento, e 100 libras ao ano da sua própria fortuna de 2,000 libras, somando uma renda de 2,600 libras ao ano – quase $86,000. Sendo um homem de honra, ele recusa a oportunidade para se manter verdadeiro ao seu anterior e impulsivo compromisso secreto com Lucy Steele. Mas uma vez que ele é liberado desse noivado através do casamento inesperado de Lucy com seu irmão, Robert, ao invés de ir atrás da srta. Morton, e dos desejos de sua mãe, ele vai até o chalé Barton para pedir Elinor em casamento, mesmo sabendo que as chances de eles poderem casar imediatamente são mínimas. Ao contrário de Willoughby, Edward escolhe o amor ao invés do dinheiro, mesmo que sua escolha signifique ter uma renda relativamente pequena.

As duas irmãs Dashwood têm visões distintas do que constitui uma quantia boa de meios para uma existência confortável. Para a extravagante e romântica Marianne, “800 ou 2000 libras ao ano; nada mais do que isso – mais de $65,000. Mas para a modesta Elinor, 1,000 libras ao ano é a “sua riqueza”. O contraste entre esses meios e a riqueza é a medida reveladora dos sensos de proporção das irmãs. Ainda assim, Marianne acredita que suas expectativas são bem moderadas: “Uma família não pode se manter bem com uma renda menor. Eu tenho certeza que não estou sendo extravagante em minhas exigências. Um número razoável de empregados, uma carruagem, talvez duas, não podem ter mantidas com menos”. Com o desenrolar dos acontecimentos, é claro, Marianne conquista precisamente o que ela queria em um casamento com o Coronel Brandon, e Elinor fica feliz com um pouco menos no seu casamento com Edward.

Alguns dos detalhes financeiros em Razão e Sensibilidade também podem nos ajudar a entender mais claramente o que constituía uma boa renda, ou o quanto uma pessoa precisava possuir para viver bem no tempo de Jane Austen. Cada uma das irmãs Dashwood herdou 1,000 libras do tio. A sra. Dashwood recebeu 7,000 libras como legado de seu falecido marido. Portanto, a sra. Dashwood e suas filhas, em conjunto, tem uma fortuna de 10,000 libras o que renderia 500 libras ao ano – $16,565 por ano. Com essa renda elas não são capazes de cuidar de suas necessidades da casa, de comida e de vestimenta, mas elas têm meios de ter três empregadas – duas mulheres e um homem – como equipe no chalé Barton. Elas não são ricas, mas parecem ser pelo menos confortáveis financeiramente falando. Realmente, nós ficamos sabendo que a sra. Dashwood “acreditava que uma quantia bem melhor do que 7,000 libras já lhe daria certa riqueza”. Essa quantia lhe renderia 350 libras ao ano – cerca de $11,600 por ano. E ela acredita que pode economizar o bastante dessas 500 libras ao ano para fazer reformas no chalé, embora nunca tenha dito nada nesse sentido durante toda a vida. O coronel Brandon oferece à Edward a residência em Delaford por 200 libras por ano. Com a renda das suas próprias 2,000 libras, Edward teria uma renda total de 300 mil libras ao ano – quase $10,000 por ano. Coronel Brandon acredita que isso seria suficiente para Edward viver como um solteiro mas não o suficiente para casar. Mas a sra. Jennings – uma romântica que pode bancar ser esse tipo de gente – acredita que 300 libras ao ano é o suficiente para um jovem casal começar a vida.

Quando Elinor e Edward noivam, as 2,000 libras de Edward e as 1,000 libras de Elinor renderiam à eles 150 libras dos cinco por cento de investimento. Essa quantia somada ao ganho de Delaford daria à eles 350 libras ao ano – cerca de $11,600 por ano. Nós ficamos sabendo que “nenhum deles estava apaixonado o suficiente para pensar que trezentas e cinquenta libras ao ano iria suprir seus confortos na vida”. Contudo, quando a Sra. Ferrars cede e dá à Edward 10,000 libras como ela deu para Fanny, eles têm um total de 13,000 libras para investir no cinco por cento e receber 650 libras por ano mais as 200 libras de Delaford. Com 850 libras ao ano – pouco mais de $28,000 por ano – Elinor quase alcançou suas ambições.

O Dinheiro, ao menos da maneira como venho o tratando, não é muito importante em A abadia de Northanger, Mansfield Park e Emma como é em Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade. Catherine Morland teria 3,000 libras – mais de $99,000 – e talvez até a propriedade Fullerton, mas isso importa muito pouco para a maioria dos personagens, com exceção do General Tilney, uma vez que Henry Tilney é possuidor de uma “considerável fortuna” através de arranjos matrimoniais e tem uma renda que lhe proporciona “independência e conforto”. Emma é herdeira de 30,000 libras – quase $1,000,000 e três vezes a fortuna do Sr. Elton. O Sr. Rushworth, com uma renda advinda de Sotherton de 12,000 libras ao ano – mais de $397,000 – é o personagem mais rico de Jane Austen – ao menos dos personagens que sabemos a renda – embora seja esquecível. A renda de Edmund Bertram advinda da paróquia de Mansfield é de 700 libras ao ano – pouco mais de $23,000 -, menos do que a renda de Edward e Elinor Ferrars. Mas Edmund é, afinal, o filho mais jovem de Sir Thomas Bertram, e parece não haver dúvidas de que tanto Sir Thomas quanto, eventualmente, Tom, na ocasião da herança do baronato, pensam que Edmund e Fanny estão mais do que bem na vida. Em todos esses romances, os personagens centrais são geralmente já financialmente confortáveis, e as referências ao dinheiro nesses romances parecem estar ali apenas para estabelecer o fato de que Jane Austen pode tratar de outros assuntos.

Esse não é o caso, contudo, em Persuasão. Sir Walter Elliot e sua família parecem estar em uma situação desesperadora. Nós sabemos que ele é proprietário de Kellynch, mas em razão de suas extravagâncias e dívidas ele não pode não pode mais bancar a residência e precisa arrendar Kellynch para o Almirante Croft. Presumidamente, a renda dos aluguéis e algum outro rendimento de alguma fazenda (se é que há algum) e o arrendamento permitem que ele viva em opulência e ostentando uma bela casa em Camden Place em Bath. Mas Kellynch irá ser transmitida ao Sr. William Walter Elliot quanto Sir Walter falecer. A realidade das circunstâncias de Sir Walter é sugerida na passagem discutindo os arranjos financeiros do casamento de Anne com o Capitão Wentworth. Sir Walter, nós ficamos sabendo, “pode dar à mão de sua filha no momento, mas apenas uma pequena parte das dez mil libras que deverão ser dela”. Essa passagem pode ser enigmática, mas parece que a herança das filhas de Sir Walter quando o pai falecer será de apenas 10,000 libras – pouco mais de $330,000 -, a mesma quantia que possuem a Sra. Dashwood e suas filhas. Assumindo que essa quantia seja dividida igualmente entre as irmãs, cada filha herdaria cerca de 3,300 libras – pouco mais de $109,000. Mary estava bem casada, mas o que seria de Elizabeth? Ela poderia, é claro, também ter um bom casamento – eventualmente – mas dada a sua personalidade e a pequena herança, seu futuro parece ser, pelo menos, questionável. As circunstâncias são melhores para Anne, é claro. Na ocasião de seu casamento, Wentworth tem uma fortuna de 25,000 libras – $828,250. Investida nos cinco por cento, essa quantia sozinha dá à eles uma renda de 1,250 libras ao ano – mais de $41,000. Mas assumindo que Anne iria herdar uma parte das 10,000 libras de seu pai, ela poderia eventualmente adicionar mais 3,300 libras aos recursos do casal, o que daria à eles uma fortuna de 28,300 libras – quase $938,000 – ou, em figuras redondas, quase $1,000,000. Em outras palavras, a riqueza potencial disponível para Anne e Wentworth é quase a mesma que a fortuna de Emma Woodhouse. Na época do casamento, Anne está ciente da “desproporção de suas fortunas”, mas isso não significa nada para ela. A única coisa que a incomoda é a “consciência de não ter nenhuma relação para estender à ele, coisa que um homem de bom sendo poderia valorizar”.

Assuntos financeiros na vida de Jane Austen têm, em seus livros, tanto lados obscuros quanto brilhantes. Nós sabemos, através de registros, que Jane Austen recebeu um total de 684,13 libras em vida em razão de seus romances – algo acima de $22,500 -, um fato que deve dar tremores à seus leitores. Mas a má situação em que se encontravam a Sra. Austen e suas filhas quando se mudaram para o chalé em Chawton não foi deprimente quanto parece. A Sra. Austen recebia, então, 210 libras ao ano de variadas fontes, e isso era suplementado por presentes anuais de seus filhos James, Henry, Edward e Frank, o que totalizava 250 libras. Dessa maneira, a renda anual das damas de Chawton era de 460 libras – pouco mais de $15,000 – quinze vezes a renda per capita – e a casa era provida para elas por Edward.

Quando Martha Lloyd se juntou a elas, ela adicionou sua pequena renda aos rendimentos das outras. Elas não eram ricas de qualquer maneira, mas aparentemente estavam confortavelmente na classe média – talvez até um pouco acima da classe média. Elas podiam até manter um servo e puderam comprar um piano para a irmã mais nova de Jane por menos de 30 guinéus. Henry, com seu otimismo usual, escreveu para Frank: “Eu realmente acho que minha mãe e minhas irmãs irão ficar completamente ricas, mais do que nunca. Elas não irão sofrer qualquer depravação pessoal, mas poderão visitar seus amigos em questões de saúde e em momentos de prazer”. Eventualmente, Jane Austen também investiu as 600 libras de sua escrita nos cinco por cento da marinha, o que gerou à ela 30 libras adicionais ao ano – quase $1,000. Ela podia viajar de vez em quando, visitar Henry em Londres, ir ao teatro frequentemente, fazer compras para ela e seus familiares – embora sempre com o olho afiado para os preços. Certamente, a Sra. Austen e suas filhas parecem ser sido razoavelmente confortáveis. Elas não podiam ser extravagantes, e sem dúvidas não podiam fazer tudo que elas pudessem desejar, mas não há nada nas cartas estudadas que sugira que elas estivessem de alguma maneira empobrecidas ou necessitadas. Para ser claro, elas eram dependentes dos irmãos e iriam preferir uma renda maior, mas não há nenhuma indicação de que elas considerassem a si mesmas pessoas em um precário estado financeiro, mesmo quando as circunstâncias fizeram com que Henry e Frank precisassem parar com os pagamentos das 50 libras à Sra. Austen em 1816.

Os irmãos Austen também iam muito bem. Edward havia herdado Godmersham e Chawton. Henry tinha seus problemas como um banqueiro mas eventualmente estabeleceu uma vida confortável como um homem do clero. Tanto Frank quanto Charles eram oficiais da marinha, e os dois, eventualmente, tornaram-se almirantes. Em 1807, Frank estabeleceu para si mesmo um orçamento de 400 libras ao ano, mas ainda assim continuava podendo manter sua contribuição de 50 libras para a mãe e as irmãs. Charles, uma vez que era mais novo e mais abaixo na patente do que Frank, não fazia qualquer contribuição regular – até onde nós sabemos. Em 1808, a renda de James, proveniente de Steventon, era de 1,110 libras – cerca de $36,000 – e ele podia bancar três cavalos.

Legenda:

*Dados estimados

(1) Taxas de câmbio oficiais

(2) Estimativas do banco Federal de Nova York (Ajustadas).

(3) Libra esterlina – coluna 1 – ajustada pela C.P.I – coluna 2 -. Em 1800 uma libra valia $4,44. Em 1988, depois de ajustar a inflação, a libra de 1800 valeria $30,62.

(4) Estimativas do dólar atual – 1800-1860 – através de várias fontes, – 1860-1988 – através da “Historical Statistics and Economic Report of the President. Em 1800, a renda per capita da Grã-Bretanha era cerca de 20% mais alta do que nos EUA. Essa diferença se estreitou ao longo dos anos e em 1900 a renda per capita era quase a mesma nos dois países. Hoje em dia a renda per capita dos EUA é pelo menos 20% mais alta do que a da Inglaterra.

Tabela preparada pelo professor Charles Roberts, departamento de economia, Western Kentucky University. Novembro de 1988.

Espero que tenham gostado!

Com carinho, Roberta.

O artigo foi publicado originalmente no blog Amantes de Jane Austen

Fonte: James Heldman

A imagem em destaque é de Colin Firth como Mr. Darcy em Orgulho e Preconceito de 1995.

Postado por: Roberta Ouriques

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