Londres no tempo de Jane Austen – Parte 2

Muitos dos romances de época que lemos se passam, pelo menos em parte, em Londres. E muitos dos clássicos são ambientados ou possuem algumas passagens por lá também (Orgulho e Preconceito, Belinda, Evelina, e por aí vamos).

Eu já fiz esse post aqui com algumas informações mais gerais sobre a cidade daquele tempo, mas hoje resolvi trazer um pouco sobre os programas diferentes disponíveis para os londrinos e turistas e os bairros (regiões) mais conhecidos da cidade, além de alguns lugares que aparecem nos romances que a gente tanto gosta (aliás, olha esse post mais antigo sobre o Almack’s). E falando em bairros, eu precisava começar pelo queridinho das escritoras de romance de época, né? rs!

Mayfair

Alguns dos residentes notáveis carregam o sobrenome Bridgerton (conhecem? rs!), mas devo lembrar todo mundo que, em Orgulho e Preconceito, é em Mayfair que Darcy se hospeda – junto dos Bingley. É em Mayfair que fica o Hyde Park, e era em Mayfair que acontecia a temporada social.

Obviamente não era uma região para todos! Mayfair era o bairro mais exclusivo e elegante de Londres, e conseguir uma casa ali custava bastante dinheiro (a título de curiosidade, uma casa razoavelmente elegante em Mayfair era alugada por cerca de duzentas libras ao ano). O endereço mais aristocrático e exclusivo por lá era a Park Lane, mas pessoas um pouco mais modestas se contentavam em encontrar um lugar na Hanover Square. A Grosvenor Square (perto de onde Mr. Darcy ficava hospedado) também demonstrava status. A Berkeley Street, por sua vez, era um bom endereço para a classe média alta e para comerciantes ricos.

Na maioria dos livros, os mocinhos – quando não são herdeiros de algum título e moram na residência ancestral da família rs – vivem em suas ‘acomodações de solteiro’. Existiam muitas opções para os solteiros de plantão, mas um dos locais mais procurados (por aqueles que podiam arcar com os custos, é claro rs) ficava em Mayfair:

The Albany: originalmente residência do duque de York, a Albany (nome da casa) foi transformada em um grupo de luxuosos apartamentos em 1802 e se transformou no primeiro exemplo de flats para homens solteiros em Londres. A localização era privilegiada: perto da St. James Square, onde ficavam muitos clubes para cavalheiros, como por exemplo o White’s, que aparece em vários romances de época hehe. Ao todo, eram setenta apartamentos destinados aos membros da aristocracia e da classe alta. Cada apartamento era independente, mas a sala de jantar, o bar e as salas de banho eram conjuntas. Era ali que os homens dormiam, se trocavam e se arrumavam, se encontravam para o café da manhã e se preparavam para os negócios do dia. Apesar das regras limitando o uso dos apartamentos estritamente para fins residenciais, Henry Angelo instalou sua escola de esgrima ali em 1804.

“Nenhum filho mais jovem de um duque deve ter vergonha de colocar o endereço da Albany em seu cartão de visita”, frase de Thomas Babington Macaulay

The Albany, por Thomas Sheperd. A construção segue em pé até os dias de hoje!

Um pátio separa a casa da rua (Picadilly), e aqui vai uma curiosidade: por um pequeno tempo, o irmão de Jane Austen, Henry, manteve sua firma (Austen and Maunde) nesse pátio.

St George’s: era a igreja mais elegante da região de Mayfair, considerada o local ideal para casar ou batizar os filhos. A igreja foi erguida para servir a comunidade entre as ruas Picadilly e Oxford, e é importante lembrar que, além dos ricos que eram donos das propriedades por ali, seus empregados também frequentavam a mesma igreja. Ou seja, entre os batizados e casamentos glamourosos, os fiéis mais humildes também apareciam para casar, batizar suas crianças e ser enterrados.

A igreja fica situada na George Street, quase de frente para a Maddox Street.

Oxford Street: era uma rua famosa por suas lojas (em 1800, a rua já contava com mais de cento e cinquenta estabelecimentos). A rua era bem iluminada com lâmpadas à óleo e o comércio ficava aberto até as dez horas da noite.

Marylebone

Área situada ao norte de Mayfair que se desenvolveu no final do século XVIII justamente por seu bairro vizinho não conseguir mais acomodar o número de pessoas interessadas em uma propriedade elegante na região mais desejada de Londres. As classes médias ocuparam a região (também as regiões vizinhas Bloomsbury e Islington) ou construíram eles mesmos vilas nos subúrbios da cidade, consolidando suas posições e criando uma classe social entre os muito ricos e os muito pobres. A Harley Street era conhecida por abrigar muitos novos ricos.

Cheapside

Gracechurch street, o endereço dos tios de Elizabeth Bennet, em Orgulho e Preconceito, ficava em Cheapside. Era o centro comercial da cidade de Londres, e apenas pessoas ligadas com o comércio viviam por lá (lembra que as irmãs de Mr. Bingley falaram isso como forma de diminuir a região?). Mas apesar do nome sugerir uma região empobrecida, Cheapside era bastante elegante e um excelente lugar para fazer compras.

Imagem de Cheapside, publicada no Ackermann’s Repository em 1812 (quando Jane Austen estava escrevendo Orgulho e Preconceito).

St. Giles

O bairro mais desagradável de Londres, era um amontoado de ruas estreitas e becos perto de Seven Dials, um refúgio para mendigos, comerciantes pobres e criminosos. Havia uma quantidade substancial de irlandeses na região: mais de seis mil irlandeses pobres.

Covent Garden

A região dos teatros, embora o bairro também fosse conhecido pela abundância de prostitutas (havia muitos bordéis – inclusive bordéis homossexuais – nessa parte da cidade). O Harris’s List of Covent Garden Ladies era um livro que continha informações sobre as prostitutas de Londres. A primeira vez que foi publicado foi em 1757 e teve uma reimpressão anual pelos próximos trinta e oito anos. O preço do livreto era de dois xelins e seis pence, e ali os homens podiam ler sobre os atributos físicos, histórias pessoais e os preços das prostitutas. Estima-se que mais de oito mil cópias do livro tenham sido comercializadas.

Mesmo que Covent Garden fosse um bairro cheio de vícios, ainda assim concentrava residentes respeitáveis. Henry Austen viveu em Henrietta Street (quando a firma dele ficou situada lá) e sua irmã, Jane Austen, o visitava com frequência.

Todo mundo no país, ou talvez na Europa, sabia que a área entre Covent Garden e St. Giles era a área mais perigosa e depravada do país (Ben Wilson, The Making of Victorian Values, Decency & Dissent in Britain: 1789-1837).

Os principais teatros localizados ali eram o Drury Lane, Covent Garden Theatre, King’s Theatre, Little Theatre e Lyceum, sendo que apenas os dois primeiros estavam autorizados pelo rei a apresentar peças de drama. Esses dois (Drury Lane e Covent Garden Theatre) ficavam abertos durante nove meses no ano, e ambos foram destruídos por incêndios em 1808 e 1809 (depois foram reconstruídos).

E se alguém estivesse procurando algo diferente. O que havia para fazer?

Competições de vela: durante o verão, havia competições de vela no rio Tâmisa.

Mr. Barker Panorama: eram exibições de grandes cidades, batalhas navais e outros grandes eventos que despertassem o interesse. Segundo um livro da época, “essas exibições são tão completas que o espectador sai com a ilusão de ter participado do evento real”. As exibições ocorriam na Leicester Square e a entrada custava um xelim. Livros da época, os que traziam dicas de Londres, frequentemente indicavam a visita ao Mr. Barker Panorama.

Visitas ao hospício e participar de julgamentos: aqueles que viviam de suas rendas podiam, vez ou outra, observar os loucos no hospital Bedlam ou assistir a um julgamento no tribunal Old Bailey – na verdade, muitas damas bem-nascidas faziam esses ‘passeios’.

Cafés da manhã públicos: era opção para dias quentes de verão, quando os proprietários dos jardins aproveitavam a oportunidade para entreter as pessoas com música, comida e bebidas e ganhar um dinheiro extra. Os ingressos precisavam ser comprados antecipadamente. Em Londres, esses cafés da manhã eram realizados nos jardins de Vauxhall e em Ranelegh. Em Bath, nos jardins de Sydney.

Museu de cera Madame Tussauds: a primeira vez que o museu esteve na Inglaterra (até 1835, o museu não possuía endereço fixo) foi em 1802. Na ocasião, madame Tussaud possuía trinta e cinco figuras em cera que haviam sido deixadas para ela por seu tio. A autenticidade e a atenção aos detalhes fizeram com que ela alcançasse a aclamação do público. As figuras de cera eram vestidas em exatas duplicatas ou, se possível, com as roupas verdadeiras. O duque de Wellington elogiou o trabalho feito na estátua de Napoleão Bonaparte.

Museu Week’s Mechanical: situado em Haymarket, o museu foi inaugurado em 1803 e tinha como principal atração uma tarântula mecânica – que assustava, principalmente, as moças. Relógios, aves e outras espécies de animais mecânicos completavam a coleção.

Jardim Botânico de Londres: situado na Sloane Street, intercalava palestras sobre botânica com concertos musicais nas noites de verão. Tanto homens quanto mulheres eram admitidos, embora o pagamento de uma subscrição anual de dois guinéus fosse necessário para evitar a intrusão de pessoas impróprias (se quisesse levar convidados, o preço era de meia coroa por cada um).

Egyptian Hall: erguido em 1812 por William Bullock, o museu abrigava artefatos de história natural (uma coleção de mais de quinze mil espécies de animais) e adquiriu bastante popularidade. O ingresso custava um xelim. Em 1816, exibiu uma coleção de relíquias de Napoleão – inclusive a carruagem usada pelo imperador francês em Waterloo.

 

P.s: para conhecer bem a Londres georgiana e seus divertimentos, eu recomento muito a leitura do livro Evelina, de Frances Burney.

Espero que tenham gostado! Os posts estão um pouco mais demorados (é tanta coisa pra fazer!), mas estou sempre trabalhando neles. Aliás, se deixei de mencionar alguma coisa que você quer saber, pode comentar aí embaixo que vou fazer o possível para sanar sua dúvida 😉

Com carinho, Roberta.

Referências: The Cozy Drawing Room, Cheryl Bolen, Jane Austen’s London, AustenonlyRegency Encyclopedia

A imagem em destaque é o lado norte da Grosvenor Square, publicada no Ackermann’s Repository em 1813.
Postado por: Roberta Ouriques

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