Londres no tempo de Jane Austen

Durante a vida de Jane Austen, Londres era a maior cidade da Europa. Para se ter uma ideia, em 1811, quando a Inglaterra contava com pouco mais de nove milhões de habitantes, Londres já tinha um milhão e nove mil e quinhentos e quarenta e seis habitantes. Era o centro financeiro e comercial* do mundo, e, é claro, o grande centro social da Inglaterra rs! E nós vamos falar sobre esse assunto específico – a temporada social –, mas que tal uma pequena introdução antes? 😊

* Essa posição avantajada para o comércio e a guerra fez com que a população de Londres ficasse mais diversificada com os mais de cinquenta mil imigrantes residentes na capital, desde aristocratas franceses até marinheiros indianos, europeus de outras nacionalidades e marinheiros negros.

Em 1803, John Feltham escreveu, no livro The Picture of London: “Londres se estende, do oeste para o leste, por toda a margem do rio Tâmisa (isso há cerca de sessenta milhas – cerca de noventa e seis quilômetros – do mar). As três principais divisões são: a cidade de Londres; a cidade de Westminster; e a área de Southwark, todas com seus respectivos subúrbios”. O mesmo autor, na mesma obra, descreveu as ruas da cidade: “As principais ruas (em Londres) são amplas e arejadas, e superam todas as outras na Europa, em sua conveniência para o comércio e a acomodação dos passageiros de todos os tipos. Elas são pavimentadas no meio, para as carruagens, com pedras largas amontoadas de uma forma bem compacta, e possuem calçadas feitas de laje nas laterais para a comodidade dos transeuntes”.

As autoridades estavam empenhadas em calçar as vias para os pedestres – ou, pelo menos, as principais vias de passagens –, de modo que Londres, muitas vezes, era citada como a cidade melhor pavimentada em toda a Europa (mas não esqueçam que Bath, por exemplo, tinha pavimentação em todas as ruas). Essa preocupação era, de fato, válida, uma vez que o trânsito em Londres podia se tornar bem caótico: era muita gente, muitos cavalos, muitas carruagens, tudo em um lugar só. Já pensou tudo isso no meio da lama rs?

* É sempre importante ressaltar que os padrões de melhorias nas ruas variavam de acordo com a região da cidade. Embora muitas ruas na região oeste e no centro fossem pavimentadas, a região leste continuava com menos recursos e menos acessíveis. Eram as áreas mais difíceis de instalar iluminação e de efetuar a pavimentação, já que as moradias eram transitórias e as ruas eram menos definidas.

Mas, mesmo que as ruas estivessem livres da poeira e da lama, ainda havia um outro problema bem pontual: a quantidade de esterco nas ruas. Afinal, cavalos eram o principal meio de transporte (isso sem contar os outros animais que eram transportados pelas ruas até chegarem aos mercados onde seriam vendidos). Eu não sei como era feita essa limpeza, mas para driblar esse contratempo, as casas tinham “raspadores de sapatos” do lado de fora. Não é um dos cenários mais comuns nos romances, né? Mas devia ser bem comum – e nada agradável – na vida real.

Outro problema também relacionado com sujeira era a tal da fog – a névoa –, que nada mais era do que a fumaça do carvão que era queimado o tempo todo, diariamente. Essa névoa ficava bem mais densa durante os meses do inverno, quando mais carvão era queimado. No livro Um cântico de natal, de Charles Dickens, ele descreve essa névoa: “Certa vez – de todos os dias do ano, na véspera de Natal –, o velho Scrooge trabalhava na contabilidade da firma. O tempo estava frio, desolado, cortante; a névoa cobria tudo; e ele podia ouvir a gente no pátio externo, arquejante, indo de um lado para o outro, batendo com a mão no peito e com os pés nas lajes do pavimento para se esquentar. Os relógios da cidade haviam acabado de dar três horas, mas já estava bem escuro: não tinha havido luz em nenhum momento do dia, e tremeluziam as velas nas janelas dos escritórios vizinhos, como manchas avermelhadas sobre o ar castanho e palpável. A neblina entrava pelas frestas e pelos buracos das fechaduras, e era tão densa lá fora que, embora o pátio fosse muito estreito, as casas do lado oposto eram meros fantasmas. Vendo a esquálida nuvem baixar e envolver tudo em suas trevas, era possível pensar que a Natureza se estabelecera nas proximidades, para fabricar espuma de cerveja em grande escala” (página 56, Um cântico de natal e outras histórias, Charles Dickens, Martin Claret, tradução de Roberto Leal Ferreira). Não devia ser um ambiente muito legal de andar rs. O ar da cidade, portanto, não era considerado saudável e muitos médicos atribuíam muitos males à poluição do ar.

O maior problema da cidade, porém, era a taxa elevada de crimes – especialmente furtos e roubos, mas também de assassinatos. E aqui vai algumas dicas do americano Benjamin Silliman (1810) para ‘enganar’ os batedores de carteiras que aterrorizavam as ruas da capital: “Se estiver saindo a noite, no meio de multidões ou qualquer lugar a pé, deixe seu dinheiro em casa, com exceção do que você precisa para uso imediato; ou deixe seu relógio em casa, ou esconda a corrente no bolso; se estiver com papéis valiosos ou livros de bolso, carregue em um bolso interno do paletó, junto ao peito, e se estiver no meio de uma multidão, coloque a mão sobre os papéis ou o livro. O lenço de bolso pode estar em perigo, mas sua perda não é tão significativa, e mesmo essa pode ser evitada se o lenço for guardado em um bolso na barra do casaco. Observando essas precauções, eu nunca perdi nada em Londres” (Jane Austen’s England, Roy e Lesley Adkins).

Sobre os crimes em geral, no site do tribunal Old Bailey, dá para ler transcrições de julgamentos desde meados de 1600. Eu já postei um traduzido aqui, mas tem de todos os tipos e de todos os crimes, basta procurar (e eu garanto que dá pra perder muitas horas naquele site hahaha). Lembrando que os crimes listados ali são os crimes praticados (em sua grande – quase absoluta – maioria) em Londres, já que, naquela época, os julgamentos no interior eram conduzidos nos chamados Assizes (sobre esses últimos, falaremos em outra oportunidade).

Mas é claro que sendo a maior cidade do continente, Londres também contava com alguns benefícios, né? Como, por exemplo, os avanços na medicina. Em 1808, o hospital de Middlesex iniciou uma série de pequenas melhorias: novas e largas janelas, para aumentar a entrada de luz e a ventilação, apenas um paciente por cama e uma equipe de funcionários sempre preocupada com a higiene. Parece pouco, mas para uma cidade conhecida por sua falta de limpeza, era um avanço e tanto. Aliás, os médicos da cidade* eram mais recomendados que os médicos do interior hehe.

* Em Londres não havia faculdade de medicina, mas a cidade era um importante centro médico onde os estudantes podiam cursar aulas privadas de anatomia e praticar seu ofício nos pobres (em hospitais de caridade).

Outro ponto que vale mencionar é a iluminação a gás. A primeira companhia de iluminação a gás surgiu em Pall Mall, Westminster, em 1803. Em 1812, a companhia forneceu lâmpadas a gás para edifícios importantes como a ponte de Westminster e o teatro Drury Lane. Em 1814, outras companhias foram abertas em Shoreditch, Spitalfields e Finsbury. No meio da década de 1820, havia mais de setenta mil lâmpadas a gás nas residências londrinas e mais de duzentas e quinze milhas de ruas estavam usando esse tipo de iluminação, embora seja importante ressaltar que em 1805 algumas lojas já estavam usando lâmpadas a gás*.

Iluminação a gás em Pall Mall, rua na região de Westminster, Londres

* Como mencionado um pouco acima, a névoa que cobria Londres era uma grande problema na cidade, e nem mesmo as lâmpadas a gás podiam ajudar quando a situação estava caótica: “A névoa, que já estava ruim quando saí de casa, foi ficando cada vez mais densa, e quando eu cheguei no parque era impossível de encontrar a saída. Meu valete desceu do veículo para sentir a estrada, e os gritos dos cocheiros e das pessoas que estavam a pé eram terríveis. Eu passei uma hora naquele parque e continuava impossível de encontrar a rua Queen, e… e como era perigoso tentar ir para casa, eu me juntei a dois homens que seguiam dois cavalos, os dois homens com tochas em suas mãos (e era com dificuldade que conseguíamos ver as chamas – os homens eu não conseguia ver). A cada dez ou doze jardas eles sentiam a porta da casa para perguntar onde estávamos – foi assustador; depois de três horas, cheguei a Chelsea” (relato de lady Bessborough sobre a névoa na noite de cinco de novembro de 1805 – Jane Austen’s England, Roy e Lesley Adkins). Apenas a título de curiosidade, nessa mesma noite, o tenente Laponetiere precisou atravessar a cidade na direção do almirantado a fim de comunicar a vitória britânica na batalha de Trafalgar.

Se bem que mesmo antes dessa nova forma de iluminação, Londres já chamava a atenção com suas lâmpadas a óleo, conforme podemos ver pela anotação do alemão Carl Moritz em 1782: “Fiquei impressionado com a forma de iluminação das ruas, e se formos comparar, em Berlim nós fazemos um péssimo espetáculo. As lamparinas são acesas enquanto ainda é dia, e são tão próximas umas das outras, que mesmo nas mais comuns das noites, a cidade possui uma aparência festiva” (Jane Austen’s England, Roy e Lesley Adkins).

Acho que é seguro estabelecer que a vida em Londres era bem diferente da vida no interior. Para muitos ingleses da época, inclusive, a capital era uma cidade de vícios e era melhor ser evitada. De fato, vários costumes de Londres eram absurdos aos olhos de muitos interioranos, ou mesmo estrangeiros, conforme podemos perceber pelas anotações de Benjamin Silliman, em 1810, sobre os hábitos dos londrinos no tocante ao domingo: “Eu fui à missa hoje, e encontrei poucas pessoas na igreja. Realmente, uma grande proporção das pessoas considera o domingo como um dia de mero descanso, um dia para relaxar e se divertir, de acordo com suas funções ou com o rank na sociedade. Uma pessoa, caminhando pelas ruas no domingo, irá encontrar muitos cavalheiros e ladies com suas carruagens e afins, talvez indo para o campo ou talvez indo para uma festa nos arredores”.

A verdade é que Londres era o lugar ideal se você estivesse em busca de entretenimento, independentemente do tipo de entretenimento rs. Se você coloca um milhão de pessoas junto em um mesmo lugar, é bastante óbvio que vão surgir alguns problemas, mas também vai aparecer bastante coisa legal. A cidade era, nas palavras, de Donald A. Low, em The Regency Underworld, “uma mistura barulhenta de metrópole, cidade e vila, um estranho amontoado do novo e do velho”. Eu penso que Londres devia ser mais ou menos o que eu acho de São Paulo – SP rs, um lugar onde tem de tudo, basta procurar hahaha.

Para terminar, quero deixar alguns números aqui como forma de ilustração (as informações estão no livro London: Being a Complete Guide to the British Capital, de Thomas Pennant e John Wallis, publicado em 1814):

* Aqui (em Londres) tem 114 igrejas, 130 capelas, 200 casas de encontro para dissidentes, 40 capelas para estrangeiros e 6 sinagogas para o uso dos judeus.

* A cidade contém 200 estalagens, 400 tabernas, 500 casas de café e 1500 carruagens de aluguel.

* Presume-se que os habitantes de Londres consomem, por ano, 100.000 gados, 700.000 ovelhas, 25.000 bezerros, 240.000 porcos, 1.172.500 barris de cerveja, 3.000 tonéis de vinho estrangeiro, 11.000.000 de galões de rum, brandy e outras bebidas destiladas, e 500.000 caldeirões de carvão para combustível.

É claro que teremos outros posts sobre Londres, pois seria impossível falar tudo em um só! No próximo, que espero postar ainda essa semana, pretendo trazer alguns lugares e formas de entretenimento na cidade naquele tempo. Garanto que será imperdível 😊 Aliás, quem gostaria de um post tratando das visitas da nossa musa Jane Austen em Londres?

Por enquanto, espero que tenham gostado desse! E me desculpando pela ausência prolongada, eu me despeço por hora.

Com carinho,

Roberta.

A imagem em destaque é de James Pollard.
Postado por: Roberta Ouriques

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